Histórias de
Motociclistas
Zé Gilherme - Águias de Aço MC - Belo Horizonte
Os amantes da motocicleta estão sempre procurando uma desculpa para caírem na estrada. Para ficar mais emocionante, de preferência “easy rider”, com o acaso cuidando de ajeitar as coisas no destino. As surpresas, por mais inusitadas, com uma dose de bom humor só fazem aumentar o prazer da aventura sonhada.
De uns “dedos” de boa prosa, no melhor estilo mineiro, trocados por obra do destino no Mercado Novo, surgiu uma pequena viagem, aproveitada por dez amigos para a viverem como uma aventura. O convite do Ricardo Lara, editor da Revista Vertnews, despretensiosamente feito ao Chico Becattine e ao Coronel Guilherme para levarem suas motos até Passa Tempo, mais uma das simpáticas pequenas cidades mineiras, cultoras da tradição de nossa hospitalidade, foi a origem de tudo.
Passa Tempo, uma cidade de mais ou menos dez mil habitantes, fica a cerca de 140 km de Belo Horizonte. O acesso se dá pela BR 381 – Fernão Dias até Carmópolis e de lá, por mais uns 20 km pela MG – 270 até a cidade. É uma povoação antiga que orgulhosamente mantém sua igreja em estilo barroco impecavelmente restaurada, encimando uma dos pontos mais altos da cidade e protegendo seus cidadãos. Do artesanato, exercitando por mais de trinta anos a antiga arte da fabricação dos belos tapetes arraiolos, parte da população promove a sua cidade e tira o seu sustento. A cachaça “Passa Tempo”, de altíssima qualidade, ocupa lugar de destaque entre as melhores fabricadas em Minas Gerais e também representa muito bem cidade da qual adotou o nome.
Combinada a data, nove de junho, dia da festa de “Santo Antônio do Cerrado”, que acontece a vários anos no alambique da cachaça já referida, os dois convidados iniciais partiram para arregimentar o resto da turma. Fixou-se em dez, o número máximo de motociclistas, considerando a disponibilidade de acomodações. O sítio do doutor Hugo, irmão do Ricardo, foi eleito como o ponto de pouso dos motociclistas. Às nove horas da manhã, na data aprazada, em um posto de combustíveis na Via Expressa, reuniram-se esses “Águias de Aço”, composto pelos: Zé Márcio, Paulo de Tarso, Chico Becattine, Zé Guilherme, Renato, Carlinhos Delpino, Zé Júlio, Fernando, Invan e Roquete. Com a média de idade em torno dos cinqüenta anos, esses “Motoqueiros Selvagens”, plagiando o filme de mesmo nome, se apresentaram equipados e animados para esse encontro. As motos, nove Harleys, sendo três Electras Glide, três Fat Boys, duas Heritages Softaill e uma Road King e uma Honda, Gold Wing, muito limpas, brilhavam com suas cores sóbrias e com uma profusão de cromados ao sol daquela bela manhã de céu muito azul. Pelo número, imponência, tamanho e cilindrada das motos, o grupo chamava muita a atenção das pessoas.
A viagem, respeitando os limites de velocidade e as regras do trânsito, transcorreu sem problemas com uma parada na lanchonete Nevada, próxima a Carmópolis, para apreciação dos tradicionais salgados da culinária mineira. A temperatura amena, o céu azul e um sol brilhante fez da viagem um passeio de muita curtição das motos e das paisagens que desfilavam ao lado da rodovia.
Entrando em Carmópolis, atravessando a cidade, a procissão de motos parecia uma festa. Adultos e crianças saudavam os motociclistas e admiravam as máquinas. Vinte quilômetros depois, passeando por entre morros e fazendas antigas, chegou-se a Passa Tempo. Aí, sem perda de tempo, o grupo dirigiu-se para a residência da família Lara, onde o abraço amigo, a cerveja gelada, o churrasco e a boa “Passa Tempo”, injetaram mais ânimo na confraternização. O Ricardo Lara, com sua inseparável máquina fotográfica, registrava tudo. O Apolinário, com seu famoso berrante, deu uma canja e nos fez reviver momentos de nostalgia fazendo soar as notas graves do berrante, recriando o clima das antigas boiadas e boiadeiros. O espírito do motociclista tem muito a ver com o espírito dessas antigas comitivas de peões. Sol, chuva, vento, liberdade, uma boa montaria e aventuras, são os ingredientes necessários para vivermos momentos de inesquecível felicidade. Para completar, o artista André Prado, cover do “Nerso da Capitinga”, que faria um show à noite, mas naquela hora era o churrasqueiro, não deixou de mostrar sua veia humorística aumentando a alegria de todos.
Como ninguém é de ferro, nem as motos que também possuem humor e coração, lá pelas cinco horas a turma dirigiu-se para o sítio do Hugo. Camas improvisadas em colchões espalhados pela casa eram o ninho perfeito para uma boa soneca turbinada pelos goles de cerveja. Combinou-se que lá pelas sete horas o grupo seria apanhado por uma van para ser levado até ao alambique da “Passa Tempo”, onde acontecia a festa.
Uma kombi, pilotada pelo simpático Edvaldo, com uma lotação de onze graúdos machos, pinoteou pelas estradas de terra da zona rural, levantando muita poeira naquela noite fria de céu estrelado, cortando por entre serras os dezessete quilômetros que separam a cidade do alambique. O bom humor é a arma para fazer de qualquer desconforto ou aperto, motivo para piadas e boas risadas. A poeira, os solavancos, as curvas apertadas e a lotação, passaram de problema a motivos para alegria. Foi assim na ida e na volta. No local da festa, uma pequena igrejinha erguida em devoção a Santo Antônio, estava cercada pela barraca de comidas e bebidas e pelo palco onde uma banda se esforçava, animando os presentes. A renda das bebidas e salgados, bem como a de uma rifa, era revertida para obras da paróquia e para a Santa Casa de Misericórdia local. Os Águias de Aço compraram vários bilhetes com a promessa da reversão do prêmio para novo sorteio, se algum do grupo fosse premiado. À procura de cerveja mais gelada, o grupo retornou para Passa Tempo, por volta da meia noite e terminou sua confraternização em uma pizzaria.
De volta ao sítio, um breve e reparador sono e às sete horas o Zé Guilherme, com muito barulho acordou os companheiros, num clima de muita brincadeira e bom humor. Motos ligadas, todos se dirigiram até a casa dos Lara, também para acordá-los e fazer a despedida. Com direito a fotografia das motos e do grupo em frente à igreja da cidade, feitas com esmero pelo Ricardo, o grupo despediu-se dos novos amigos, prometendo voltar na primeira oportunidade.
A viagem de volta, como na ida, foi também um belo passeio de motocicleta curtindo a natureza. Sem sombra de dúvida, pode-se afirmar que os motociclistas são de fato filhos diletos do Poderoso, pela simples e ao mesmo tempo imensurável dádiva, de poder fazer de cada passeio uma aventura e de cada aventura mais uma razão de bem viver.