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Um Encontro com a Liberdade

MAGAL, ARARAS DO ASFALTO- Contagem- MG

 

 

Por Deiwson Ferreira de Magalhães (MAGAL, ARARAS DO ASFALTO- Contagem- MG)

Colaboraçao: Carla Granata

deiwsonfm@pop.com.br

08 de Abril de 2006

 

                        Mais um final de semana se aproxima e começo a ser tomado por uma ansiedade de liberdade, liberdade que somente duas rodas proporcionam. A moto recebe cuidados especiais: polimento do cromo, calibragem dos pneus, verificação do óleo e bateria , conferência de toda parte elétrica , cera na lataria e na carenagem e um pretinho nos pneus para dar aquele charme.

                        A moto para um motociclista é encarada como uma namorada e a esta deve ser destinado todo cuidado. Namorada é aquela por quem se tem ciúme, não se toca e também não se aceita que falem mal dela. Poderia se dizer que é como um casamento (quando se encontra a mulher de sua vida). Não temos piedade com o produto de nosso suor na hora de comprar os assessórios, queremos vê-la bonita; não relaxamos com a manutenção, não queremos vê-la doente e, até mesmo uma simples volta de uma ida na padaria da esquina não escapa dos carinhos de uma flanelinha

                        Gostamos de preparar a moto para um encontro, é um ritual prazeroso do qual não abrimos mão, afinal em muitos casos, a motocicleta é o reflexo de seu proprietário. Existem os mais conservadores, outros mais exóticos, alguns bem originais e aqueles que estilizam tanto a moto que parece mais um componente para cenário de filme de terror ou ritual macabro, mas é aí que deparamos novamente com o livre arbítrio e a liberdade de expressão.

                        A vida é um cotidiano tomado por compromissos que se atropelam. Horários marcados, trabalho estressante, cada um lutando do jeito que pode para garantir seu lugar ao sol, trânsito caótico, serviços de ônibus coletivos tão ruins que parece mais uma penitência o itinerário para chegar em casa. Uma hora é um aposentado que fica sem o seu benefício, outra hora é uma idosa ficando sem sua correntinha ou seu anel. Na esquina alguém aplicando os golpes do achadinho ou o conto do vigário ou quando não um tampinheiro prometendo a sorte grande. Nos cruzamentos são carros avançando o sinal vermelho, nas calçadas um exército de camelôs jogando os pedestres para a rua e, quando se assusta, simultaneamente com uma brusca freada, está lá um corpo desfalecendo na horizontal, paralelo ao asfalto. As lucrativas entidades bancárias pregam a utopia do atendimento em quinze minutos e continuam com a artimanha de entregar uma cartela de controle de tempo a cada vinte minutos ao último da fila. E a loucura não pára por aí não; são flanelinhas extorquindo seus cinco reais tabelados. A operadora de trânsito municipal que cobra o faixa azul, mas não dá garantia alguma de segurança e a cada som de alarme disparado, dispara junto seu coração, quando se lembra daquele interminável carnê da financeira e lá vai mais um na desesperada correria, largando tudo para trás em direção a seu bem móvel.

                        Lamentavelmente é uma realidade que vai minando aos poucos nossa paciência, nosso equilíbrio emocional, nos deixando fatigados, mal humorados e infelizes, diante disso só uma saída: torcer por um final de semana de sol radiante, consultar pela Internet, nos sites especializados, a agenda de eventos, escolher nosso destino e encarar a estrada. Sozinho ou em grupo, não importa. O que importa é fugir do nosocômio urbano a que chamamos de capital.

                        Aí nos sentimos livres para voar. Voar não sentido denotativo de ultrapassar, de forma irresponsável, os limites da velocidade, mas no sentido de nos vermos livres das algemas do relógio.

                        Em cima de uma motocicleta encontramos a paz e o equilíbrio mental de que precisamos, e a paisagem dos arranha-céus é substituída por uma paisagem verde natural das matas, rios, cachoeiras e pastos. A atmosfera cinzenta pelo dióxido de carbono e pelas chaminés é substituída por ar puro. São os ventos montanheses que suavemente enfrentam nosso corpo numa resistência infantil. Poderia dizer que é uma saborosa comunhão: moto, estrada, verde e ventos. Lógico que esse quarteto homogêneo perde sua consistência quando não associado a um ingrediente chamado responsabilidade. É preciso entender que somos humanos e como humanos somos limitados, que a moto é uma máquina e como tal pode apresentar problemas mecânicos a qualquer velocidade, que nossas estradas apresentam erros de engenharia e são mal conservadas. Os buracos muitas vezes são verdadeiras sepulturas à espera de seus cadáveres. As placas de sinalização ou estão pichadas ou encobertas pelo mato. As guias do asfalto perderam sua cor somada à presença de animais que rompem os limites dos pastos para desfilarem pelas passarelas automobilísticas. Não podemos descartar um outro perigo representados pelos motoristas embriagados na condução de seus veículos, expondo suas vidas e a de terceiros a preço de uma dose de cachaça. Como também os motoristas que ultrapassam os limites humanos do sono, que tomam remédios e outras porcarias mais para se manterem acordados na direção a fim de cumprirem horários, _ vale destacar que tais intentos terminam quase sempre em grandes tragédias.

                        Mas superadas essas adversidades é só se deliciar em companhia de muitos amigos e de novas amizades que vão se constituindo ao longo dos eventos. Amizades que se solidificam, amizades verdadeiras, pautadas na sinceridade, na transparência e na ajuda mútua. São amizades que nascem primeiramente pelo amor à moto, sem qualquer interferência de cor, clero, posição social, preferência futebolística, discriminação de marca ou cilindrada. Ao contrário do que acontece quando envolve a opção esportiva, onde seus torcedores proferem insultos, promovem agressões, alimentam rivalidades e até matam defendendo o estandarte de suas agremiações. No motociclismo ocorre o inverso, não importa o brasão estampado no colete, são todos considerados irmãos, uma grande família com propósitos comuns e a única bandeira defendida é a da paz pela paz.

                        O meio do motociclismo é um ambiente saudável, no qual temos o prazer de inserir nossos filhos nesse contexto e deixá-los à vontade, porque estão em segurança ao lado de pessoas de bem. Constituído de profissionais liberais que tem um nome a zelar, funcionários públicos da área de segurança destinados a manter a ordem, membros do judiciário e aposentados que carregam na bagagem toda uma experiência de vida e tantos outros que não querem manchar a imagem do motoclube.

                        O comportamento pessoal também é outra marca registrada de um motociclista, a educação indiscriminada, o cuidado com o vocabulário, em virtude de familiares presentes, o uso moderado de bebida alcoólica, (afinal, bebida e moto não é um matrimônio perfeito). Até admite-se um pouco de excesso quando o motociclista vai pernoitar na área do evento. Contudo quando se percebe que alguém está passando da conta e vai encarar a viagem de volta, logo algum integrante mais atento, chama para si a responsabilidade de ''prestar aquela assessoria''.

                        Não há nada mais prazeroso do que chegarmos a uma cidade e sermos bem recebidos, mesmo que a indumentária cause um certo susto aos mais conservadores e principalmente aos religiosos. Conseguimos sentir a cada olhar de admiração o quanto somos queridos, especialmente quando a cidade já recebeu, em outras épocas, o evento e as pessoas guardaram uma imagem. É prazeroso quando um pai ou uma mãe chega até o motociclista e pede uma foto junto a seu filho, ou simplesmente pede sua moto emprestada para a foto. É gratificante a hospitalidade oferecida pelos moradores quando algum motociclista se vê em alguma dificuldade, a ponto de oferecerem suas casas para abrigar os estradeiros. Vê-se aí, claramente, a confiança depositada aos integrantes de motoclubes.

                        Tudo isso porque ser motociclista não é simplesmente subir em uma moto e seguir o comboio. O que se leva em conta é o espírito da opção. A filosofia precisa ser internalizada de forma consciente e não deixar à beira da estrada o respeito aos limites da máquina e do ser humano, o respeito às leis e aos agentes de trânsito, o respeito à natureza e àquele que divide a estrada com você e, não abrir mão, jamais, dos itens de segurança do condutor e passageiro.

 

A todos uma boa viagem e até o próximo encontro.

 

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