Histórias de
Motociclistas
Por Eduardo Fonseca
Há três meses comprei minha primeira moto, uma Virago 250. Junto com a emoção de dirigir a maquininha, o sonho de "singrar" as estradas brasileiras montado nela. Conversei com vários amigos motociclistas sobre esse sonho e eles me deram a maior força, muitas dicas e a melhor sorte. Finalmente, dia 16 de Julho de 2004 fiz minha primeira viagem solo e abaixo segue o relato desses 10 maravilhosos e inesquecíveis dias.
A IDA
Saí de Belo Horizonte por volta das 11:20h rumo à Morada Nova de Minas onde minha noiva, Melissa está fazendo o Internato Rural. Pretendia sair por volta de 8h, mas vários pequenos contratempos retardaram minha saída, sendo que o principal foi a instalação do pára-brisa que comprei de segunda mão. O cara que me vendeu demorou a chegar lá em casa e eu ainda tive que ir ao centro da cidade comprar dois parafusos e porcas para fixá-los no guidão .. tá uma beleza aquele pedaço de ferro enferrujado que comprei de última hora no Mundo dos Parafusos.
Bom, quando finalmente consegui zarpar estava todo emocionado, afinal, uma empreitada dessas não e mole não. O trecho da BR-040 até Sete Lagoas está ótima, exceto aquele pedacinho logo após os Motéis que nunca foi bom mesmo, mas uma coisa me deixou curioso: o fato de não escutar a buzina quando ultrapassava os caminhões. Tudo bem que eu estava com um capacete SKY KO novinho em folha e um protetor auricular, pois não gosto de barulheira nos ouvidos, mas ainda assim deveria ouvir alguma coisa. Fiz minha primeira parada aos 140 km. Achei estranho não encontrar o ponto neutro da moto. Só então percebi que a luz havia queimado!!?? Fui conferir a parte elétrica e percebi que também estava sem setas e buzina. O FUZIL (como dizem em MN - Morada Nova) tinha pifado. Que meleca! Não havia percorrido 150 km e já não tinha setas, buzina nem a luz do ponto neutro. Mesmo preocupado com esse inconveniente resolvi prosseguir. O trecho entre Sete Lagoas e o trevo de Curvelo está bem ruinzinho com muitas irregularidades na pista única. Não tive problema algum com o trânsito, muito pelo contrário, a maioria dos carros abria bastante ao me ultrapassar e o deslocamento de ar não incomodava. Mantendo a velocidade em 110 km/h passei o trevo de Curvelo e daí pra frente estrada melhorou.
Reabasteci. Muito me agradou saber que a Viraguinho estava fazendo 31 km por litro de gasolina. Toquei em frente, mas comecei a ficar preocupado, pois não encontrava placa alguma para Abaeté/Martinho Campos. Após uns 40 km, finalmente eu vi a indicação. Beleza! .. virei e apontei o guidão para oeste. Andei mais um pouco e vi a placa da cidade Angueretá. Não tenho a mínima idéia do que essa palavra em língua Tupi significa, nem mesmo sei se é Tupi, mas prometi um dia visitá-la. Andei mais uns 20 km e parei para almoçar. O pequeno e simpático restaurante servia comida personalizada, ou seja, a cozinheira faz a comida especialmente para você, uma vez que o número de clientes é bastante reduzido. O preço também é bem camarada! Aí, livrei-me momentaneamente de uns 10 kg de parafernália: capacete, luvas, jaqueta, ponchete, proteção auditiva, óculos, dentadura postiça, olho de vidro, etc. A comida estava boa, apesar da carne cozida estar um pouco gorda. Em seguida chegou um caminhoneiro com a família. Deu-me algumas dicas sobre a cidade e estrada e ficamos papeando enquanto sua comida não chegava. Terminado o papo, vesti a tralha toda e segui caminho para MN. Passei Pompeu e Martinho Campos. A estrada estava bem ruinzinha. Nada horrível como o trecho que futuramente iria encontrar, mas o asfalto está todo remendado e tem vários pequenos buracos devido ao intenso tráfego de caminhões. Após Martinho Campos a estrada melhorou. Cheguei a Abaeté e com alguma dificuldade encontrei o caminho para MN. Só fui abastecer novamente em Paineiras com a Viraguinho mantendo seus 31 km por litro. De repente estrada virou um grande tapete negro e a paisagem mais bela ainda. Só faltou uma máquina fotográfica para registrar o momento.
Por volta de 17h finalmente cheguei a Morada Nova de Minas. Como toda boa cidade do interior, procurei a Igreja, sua Praça e um cemitério próximo, mas antes, a Melissa já havia me encontrado!!!! O lance bacana foi quando ela me pediu para darmos uma volta de moto. Digo bacana, pois há 1 ano quando resolvi tirar carteira de moto, uma das coisas que ela afirmou veementemente, dentre a azucrinação no meu ouvido, era que jamais subiria num veículo de duas rodas. Como as coisas mudam em pouco mais de um ano!
Bom, MN é uma cidade muito acima dos padrões de cidades interioranas. Possui algumas "prainhas" formadas a partir do lago da represa de Três Marias onde, além do banho, podemos jogar peteca, vôlei e até futebol. Infelizmente não tem uma quadra para um "Tenisinho" básico. Também fiquei conhecendo um mecânico que deu uma geral na minha moto. Trocou o "fuzil" e falei que no próximo sábado eu teria minha primeira aula de mecânica de motos. Aí, fiquei pensando se o pessoal do Moto clube toparia fazer um passeio a MN. Seria legal ver aquele bando de motociclistas chegando à cidade. Imagino o Cezar e as trombetas de seu escapamento anunciando a chegada dos Templários. A cidade inteira sairia para ver o que estava acontecendo.
Bom, noite de domingo e começo a fazer os preparativos para a partida para Brasília, afinal, estou com saudades do meu sobrinho de 2 anos, motivo maior da minha viagem. Colocamos o despertador para as 5 da matina e buff na cama.
Segunda feira aprontei rápido (banho no frio daquela hora nem pensar), tomei café na primeira padaria, despedi da Melissa e às 6:15h deixei MN para trás. O chato é que tive que fazer o caminho todo de volta para chegar a Três Marias. Há uma estrada de chão, pegando ainda uma balsa, a 40 km de lá, mas seria suicídio colocar minha máquina na terra por causa desse atalho. O resultado foi re-percorrer quase 300 km para chegar à represa. Logo que passei Biquinhas - vilarejo a 44 km de MN, fiquei maravilhado com um casal de araras cruzando a estrada num vôo magnífico. É realmente emocionante encontrar esses animais em seu habitat natural. Bom, a temperatura estava bem baixa e meus óculos embaçavam o tempo todo, portanto, minha próxima aquisição será aquele frasco de liquido desembaçante que um amigo meu vendia representando a AMWAY. À medida que a terra girava deixando o sol mais alto a temperatura ia ficando melhor. Novamente senti falta da câmera fotográfica, pois há belos trechos da estrada que merecem uma chapa.
Cheguei ao trevo e segui rumo a Felixlândia. Num determinado ponto, antes de Três Marias, fiquei 45 minutos parado por causa da "Emobrás". Enquanto os funcionários da empresa não liberavam a pista, conheci um grupo de evangélicos que iam a Brasília para um encontro. Eles vinham de Angra dos Reis e a gente acabou se cruzando algumas vezes mais no caminho. Quando finalmente liberaram a pista, seguimos em fila indiana até que um certo "condutor de veículo automotivo" numa caminhonete toda "podscrê" resolve me cortar pela direita na pista única. Quase caí, literalmente, de susto. Esse foi o pior incidente durante toda a ida.
Percebi que a Viraguinho diminuiu o rendimento e começou fazer 27,5 km por litro. Talvez alguma sujeira nos filtros ou gasolina alterada ou mesmo alguma coisa desregulada por causa da distância. De Três Marias em diante não houve muito que contar. Sempre que parava procurava fazer alongamentos, pois a dor nas costas se fazia sempre presente, afinal, 20 anos envergado em cima de um violão produziram danos irreversíveis à minha coluna vertebral - se é que ainda tenho uma. Fiquei emocionado ao cruzar o velho Chico e ao mesmo tempo triste de saber que ele está secando a cada dia. "O medo que algum dia o mar também vire sertão".
Passei João Pinheiro, Paracatu e cruzei o Rio São Marcos - divisa entre MG e GO. Em Cristalina peguei o pior trecho da estrada - todo esburacado e cheguei à Brasília pulando e batendo mais que pipoca. É vergonhoso uma rodovia federal, principalmente a BR da nossa Capital, se encontrar em estado tão deplorável. Cheguei à casa da minha irmã por volta de 17:30h totalmente, completamente, inteiramente e verdadeiramente MOÍDO. Inteira mesmo só a moto, mesmo assim, antes de pegar o elevador, tive a impressão de vê-la com a língua de fora!!! Dessa cadeira da qual vos escrevo ainda tento recompor o resto que sobrou.
Ao entrar no apartamento, meu sobrinho pulou de emoção - "Titio chegou", disse ele com um sorriso que mal cabia no rosto.
Assim, finalizo aqui a primeira parte da minha viagem solo.
"Utinam Di omnibus loco me ferunt" (Que os deuses me levem a todos os lugares).
A VOLTA
Saí de Brasília às 11h com destino a Três Marias - aproximadamente 462Km. Resolvi fazer a viagem em duas etapas, pois a ida, como já relatei, foi muito desgastante: quase 12h sobre a motocicleta. Desta vez, consegui uma câmera fotográfica emprestado, afinal, não estava afim de passar raiva duas vezes em menos de uma semana.
Logo de saída, um senhor dirigindo um Versailles emparelhou comigo. Olhei pro lado e ele me cumprimentou, desejando-me boa sorte com o tradicional gesto italiano de unir a ponta dos cinco dedos da mão nos lábios e lançá-los à frente com um beijo. Esse formidável aceno foi meu grande companheiro de viagem, principalmente naqueles momentos quando os engraçadinhos de sempre me cortavam.
Eu estava preocupado com o consumo da moto, pois cada vez mais as distâncias de reabastecimento diminuíam. O consumo chegara a meros 25 km/l. O último posto que parei foi o Corujão, em Cristalina, exatamente a 70 km da casa da minha irmã, mas como o frentista havia derramado gasolina no tanque, resolvi abastecer antes, mesmo porque não tinha certeza se conseguiria chegar lá. Parei num posto Texaco na região das mansões e segui viagem.
Como já disse no relato da ida, a BR 040 do estado de Goiás, principalmente entre Cristalina e Brasília não é dos melhores, daí andei alguns longos trechos no acostamento. O procedimento não é dos mais recomendáveis principalmente em trânsito intenso, mas, mesmo com o horário avançado, os deuses conspiraram a meu favor. Alguns quilômetros à frente outra emoção: sobre o rio Taquara o marcador de quilometragem registrava 10.000 km, claro que nestes três meses que estou "motocicletado", só andei a metade, mas, ainda assim foi uma alegria à parte. Na fronteira dos estados, fiz uma pequena parada para fotografar a placa sobre o rio São Marcos. Em seguida a maior preocupação - o motor falhou indicando ausência de gasolina. Putz! Será que eu iria parar na estrada? Girei o regulador da reserva e todos os meus sentidos se aguçaram na busca pelo próximo posto. Eu calculava que andaria uns 50 km, uma vez que a Virago estava fazendo de 25 km/l aproximadamente. Por sorte, não demorou muito e cheguei ao posto Ranchão, no município de Paracatu. Abasteci e aproveitei a parada para almoçar.
Segui caminho e a próxima parada foi em João Pinheiro. Logo bateu aquela sonolência pós almoço, mas ela logo se dispersou devido à série de inconvenientes que estavam para acontecer. Um caminhão à minha frente me "açoitava" com pedrinhas caídas da carroceria. O sofrimento foi triplo. Primeiro para ultrapassá-lo pois ele estava andando bem; segundo porque uma das pedras acertou minha canela e doeu (e muito); por último, embora eu não me orgulhe nem um pouco disso, foi que na ansiedade de me livrar daquela situação incômoda, resolvi cortá-lo num local não muito recomendado e acabei sendo obrigado a entrar no acostamento da contramão por causa desta ultrapassagem mal feita.
Passado o susto, cheguei ao topo do morro que antecedia o vale formado pela bacia do rio S. Francisco onde resolvi parar para tirar mais algumas fotos (vejam-nas no site www.templariosmc.com.br). Era aproximadamente 17:15h e queria registrar o belo entardecer. Como a viraguinho era a vedete do passeio, fotografei-a em quase todas as chapas. Fim da primeira etapa da viagem, hospedei-me no Hotel Náutico. Subi para o quarto com o intuito de tomar um bom banho, pois o frio congelava a alma. Mesmo cansado das 6 horas de viagem ainda tive forças para comer uma fantástica moqueca de peixe com pirão e purê de batatas.
Dia seguinte tomei o café da manhã, fiz o acerto de contas e enquanto ajeitava a bagagem vi um cachorro se lamentando insistentemente ao meu lado. Só fui entender o que ele queria quando dei partida na moto e ele saiu correndo feito louco me chamando para um "pega" (só faltou ele jogar o pauzinho). Ele foi pulando na frente da moto até a BR quando finalmente ficou para trás. Abasteci no posto "Doce Mar" (melhor gasolina do pedaço) e precisamente as 7:17h rumei para Morada Nova. Andei uns 10 km e passei a entrada da estrada de chão de MN. Por pouco resolvi fazer uma nova aventura, mas não seria prudente transformar minha Virago em moto de trail. Logo mais - Parada Obrigatória! A reforma da pista obrigava todos os motoristas a formarem uma longa fila. Desta vez resolvi parar lá na frente. Os carros já estavam ali há quase uma hora, mas por sorte, só fiquei uns 15 minutos. Mais uma vez fiquei impressionado com a falta de educação e o ar de superioridade de alguns indivíduos que se consideram melhores, superiores e mais importantes que os demais cidadãos. Outra vez um senhor numa caminhonete toda incrementada - será coincidência?
Continuei minha jornada sempre acenando, cumprimentando e sendo saudado pelos caminhoneiros. Se por um lado seus caminhões ajudam a estragar a estrada, por outro eles são sempre os primeiros a prestar ajuda em caso de acidente. A cena cômica foi quando ao ultrapassar um deles percebi que o seu espelho retrovisor estava quebrado e no lugar, todo pregado com durex e fita crepe, havia um espelho de mão - daquele tipo barato que se vende em camelô.
Finalmente, alguns metros antes de chegar ao trevo de Abaeté, abasteci no posto BR, ainda preocupado com o alto consumo da moto. Só tive certeza de que realmente era o "fuel" quando, milagrosamente, ela voltou a fazer 30,4 km/l. Beleza! Feliz pela "economicidade" e por estar cada vez mais próximo à minha noiva, acelerei forte. Um pouco mais a frente uma blitz de Martinho Campos obrigou-me a parar. Sinceramente acho que o policial estava mais interessado no meu capacete que nos documentos da moto, pois só se preocupou em saber os dados do dito cujo. Sobre os documentos mesmo não deu a menor bola.
Parei em Abaeté para trocar o óleo motor, uma vez que percorrera mais de 2.000 km. Falei com o mecânico a respeito da parte elétrica e não é que depois que ele deu umas cutucadas aqui e ali a minha seta voltou a funcionar? Mas só perto dele mesmo, porque na estrada que é bom, ela não me obedecia. Cheguei a Morada Nova de Minas por volta do meio dia e foi a conta de trocar de roupa, sair para almoçar com a Melissa e me preparar para mais um final de semana "agitado".
Segunda feira, saí as 7:10h. O Rio São Francisco corta a estrada entre Paineiras e Abaeté. Na ponte resolvi bater uma chapa. Parei a moto no acostamento de terra, verifiquei se o chão estava firme e desci. Sem querer, esbarrei na mala que estava amarrada no bagageiro e para minha tristeza a moto tombou. Fiquei muito chateado. Puxei-a pelo guidão e coloquei-a em pé novamente. Apesar de uma seta quebrada a moto não sofreu muito. Pela primeira vez levei a sério o ditado que diz "doeu muito mais em mim do que em você". Depois desse infeliz acidente, nada a relatar exceto por um tucano que passou logo à minha frente e por uma doninha que cruzou a estrada e quase foi esmagada por um carro que vinha na outra pista. Cheguei a BH as 11:30h. Interessante como as distâncias parecem diminuir à medida que vamos conhecendo a estrada.
Assim, encerro o relato da minha primeira viagem solo. Gostaria muito, antes de finalizar de agradecer todo o pessoal que me tem dado apoio nesse meu pouco tempo de motociclismo (Elmo, Cezar, Nelson, Miúdo, Paulinho, os demais cavaleiros Templários, etc.) e principalmente ao Euro em específico, por me incentivar a fazer este empreendimento sozinho.
A todos, o meu grande abraço!
"Utinam Di ab omnibus locorum me ferunt" (Que os deuses me tragam de todos os lugares).
Eduardo Fonseca